sábado, 31 de julho de 2010

REVELAÇÃO


Sou estranha figura,
isolado, olhos vendados,
escuridão escura!

Sinto e pressinto
mãos misteriosas
a retirar a venda
que me cobre os olhos...

E enxergo na luz
que agora reluz
a grande verdade
que ver sempre quis:

- O mundo feliz,
a vitalidade do ser
que sobrepuja a matéria,
a força etérea,
o sentido da vida!

- A poesia limpa e pura
que na forma madura
da cadência do verso
e na quebra da rima
vem solene exaltar
a centelha divina
nos umbrais do Universo,
na crosta terrestre ,
nas vagas do mar!

O riso, o choro,
o grito contente,
o gemido na dor,
formam notas vibrantes
de hino constante
de paz e de amor!

A Lei compreendi,
é justa e perfeita,
a causa e o efeito
andam junto ao eleito
e a verdade conduz
em dado momento,
ao caminho da luz,
cada um ao seu tempo!

Mais cedo ou mais tarde,
no instante adequado,
até mesmo o culpado
no seio do amor
terá acolhida,
e verá desvendado
os mistérios do mundo,
da morte e da vida!

(IGdeOL: Amor, singelo amor! Itapema, 2002)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

FANTASMAS E ASSOMBRAÇÕES


No ventre da noite
os fantasmas se formam
e são paridos, um a um,
nas esquinas e encruzilhadas.


E os viandantes noturnos,
soturnos e embuçados de medo
recolhem as criações
ao ambiente seguro
das casas mal-assombradas.


(IGdeOL: Versos Esparsos, Blumenau: Nova Letra, 2009, pag.16)

terça-feira, 13 de julho de 2010

RECORDAÇÕES

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE SÃO BENTO
CARAZINHO (RS) - Jul/2010 - Foto IGdeOL

Quando no silêncio da noite

converso com meus botões,
sinto voar o pensamento
em busca de emoções
e em "flash" instantâneo
visitar muitas regiões.

Como é belo e agradável
na noite calma e serena
sentir, ver e recordar
a vida que valeu a pena,
as amizades deixadas
e os locais que fazem a cena!

Recordar os velhos tempos
da infância e da mocidade,
os brinquedos e os namoros
as paixões sem muito alarde,
a Escola do Laranjal,
minha vila e a cidade!

Vestir meu primeiro terno
que minha mãe fez com carinho,
casimira azul-marinho,
camisa de colarinho,
gravata, já pronto o nó,
sapato preto lustrado
em um lencinho engomado
no bolso do paletó!

E assim, enfatiotado,
tomar o ônibus bem cedo,
sem esquecer o detalhe
de me manter comportado
que o dia muito vale,
é minha primeira missa
como aluno do "La Salle"!

Recordar?...
Ah, que saudades
dos meus tempos de guri,
da minha terra natal,
da "Cruzinha" onde nasci,
das margens do Rio da Várzea
floridas de sarandis
onde junto ao meu pai,
naquelas saudosas tardes
ia pescar lambaris!

E "São Bento",
lembro-me bem,
aquela parada do trem
que hoje me parece lenda,
A "Maria Fumaça" chegando
e o meu avô me esperando
para as férias na fazenda!

Êta que férias gostosas
naqueles dias de infância,
brincar na água da sanga,
correter por toda a estância,
cavalgar no burro manso,
sentir a escola à distância!

E a noite já cansado,
mas livre dos desenganos,
ouvir histórias de fadas,
contos de indios e ciganos
e vovô a declamar solene
o poema "Meus Oito Anos"!

Recordar, diz o poeta,
é viver mais de uma vida,
por isso, hoje em versos,
nesta poesia sentida,
revivo os meus afetos
e a minha terra querida!

(IGdeOL: Amor, singelo amor!, Itapema: Graf.Verdes Mares, 2002)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

VIA SACRA

IGdeOL

Viandante das praias de Itapema,
sou um andarilho a vagar sem rumo,
da essência da vida procurando o sumo
para aprisionar em sonoro poema!

Pescador de versos que na rede caia,
em minutos apenas, em fração de tempo,
recolho as pérolas do meu pensamento
junto aos bares desta Meia Praia...

O vento suave que em meu corpo bate
é o abraço fraterno que o Universo abarca
ao poeta, cultivador de beleza e arte!

Agradecido sou, inspiração à parte,
chego a mais uma estação da minha via sacra,
um trago apenas: só de poemas não sobrevive o vate!...

quinta-feira, 10 de junho de 2010



QUESTIONAMENTO




Bem-te-vi,
porque me provocas
nas manhãs de sol?

Acordo ao raiar do dia
para conferir tua implicância
e à distância abro a janela da minha alma:
sem te avistar ouço a tua cantiga.

Mergulho na minha individualidade
com o teu canto que me encanta
e me questiono nas manhãs de sol:
- Que tu vês, bem-te-vi?
(IGdeOL)

domingo, 16 de maio de 2010

FILOSOFANDO


(IGdeOL)

Caramba, que manhã gelada
deste inverno frio e matreiro!...

A geada, na madrugada,
no seu trabalho de fada
pintou de branco o potreiro!

E no tranco de tropeiro
com seus raios vivos de luz
o sol garboso aparece
e, pouco a pouco, conduz
na sua eterna rotina
a mudança, sem pilhéria,
de transformar a matéria
na forma da Lei Divina...

O orvalho congelado
ao toque do sol alçado
límpidas lágrimas derrama
que vão correndo na grama
do descampado sinuoso.

E no calor luminoso
do sol sublime do dia
o sólido gelo do orvalho
na messe desse trabalho
retorna ao estado gasoso
e outro ciclo se inicia.

Assim é a vida, assim sou eu,
porção de orvalho congelado,
no potreiro do mundo espalhado
aguardando do sol o apogeu
para no momento oportuno
desfazer-me em sutis substâncias,
volitar e adejar por ditosas distâncias
livre das amarras deste mundo soturno!

sábado, 8 de maio de 2010

DIA DAS MÃES


DEDICADO A MINHA MÃE

NO JARDIM SUSPENSO DOS MORTOS

(IGdeOL)


Sobressalto!

Minha mãe chora copiosamente sobre o meu cadáver.

Lágrimas umedecem o paletó preto que, lembro-me vagamente, aquele homem de face pálida e aparência distinta havia me vestido quando ainda eu jazia no frio mármore do necrotério.

Tento articular palavras de consolo à minha aflita mãe, mas os lábios que sinto ressecados não obedecem ao comando do meu cérebro. Não consigo desviar a atenção do perfil que se depara à minha frente.

Flexiono os braços para abraçá-la e eles não se movimentam.

Ouço à distância o murmúrio do vento e cânticos sonoros que aguçam a minha mente em redemoinho violento.

Não tenho noção de tempo. O lugar em que me encontro parece-me frio e terrível. Medo e pavor apoderam-se do meu pensamento. Sinto-me perdido nos confins do Universo e as lágrimas que minha mãe derrama sobre o paletó vão pouco a pouco adentranda no casimira do seu feitio, aquecendo meu coração inerte.

Sinto-me protegido por agradável sensação de afeto e me dou conta que não mais faço parte do mundo dos mortais e que sou mais um vivente no desconhecido mundo dos mortos.

Que serei nesta estranha paragem com o corpo sem ação e sendo corroído pelos vermes que deslizam nas minhas entranhas, sem ao menos pedirem-me licença para tanto?

Ah, se eu soubesse!

Com certeza teria tido mais carinho para com Dona Alzira, minha querida mãe, durante a efêmera vivência terrestre.

Agora somente as suas lágrimas são os medicamentos que amenizam as dores das feridas que minúsculos seres fazem na minha carne e nas minhas entranhas.

Silencio...

Silêncio completo!