terça-feira, 13 de julho de 2010

RECORDAÇÕES

ESTAÇÃO FERROVIÁRIA DE SÃO BENTO
CARAZINHO (RS) - Jul/2010 - Foto IGdeOL

Quando no silêncio da noite

converso com meus botões,
sinto voar o pensamento
em busca de emoções
e em "flash" instantâneo
visitar muitas regiões.

Como é belo e agradável
na noite calma e serena
sentir, ver e recordar
a vida que valeu a pena,
as amizades deixadas
e os locais que fazem a cena!

Recordar os velhos tempos
da infância e da mocidade,
os brinquedos e os namoros
as paixões sem muito alarde,
a Escola do Laranjal,
minha vila e a cidade!

Vestir meu primeiro terno
que minha mãe fez com carinho,
casimira azul-marinho,
camisa de colarinho,
gravata, já pronto o nó,
sapato preto lustrado
em um lencinho engomado
no bolso do paletó!

E assim, enfatiotado,
tomar o ônibus bem cedo,
sem esquecer o detalhe
de me manter comportado
que o dia muito vale,
é minha primeira missa
como aluno do "La Salle"!

Recordar?...
Ah, que saudades
dos meus tempos de guri,
da minha terra natal,
da "Cruzinha" onde nasci,
das margens do Rio da Várzea
floridas de sarandis
onde junto ao meu pai,
naquelas saudosas tardes
ia pescar lambaris!

E "São Bento",
lembro-me bem,
aquela parada do trem
que hoje me parece lenda,
A "Maria Fumaça" chegando
e o meu avô me esperando
para as férias na fazenda!

Êta que férias gostosas
naqueles dias de infância,
brincar na água da sanga,
correter por toda a estância,
cavalgar no burro manso,
sentir a escola à distância!

E a noite já cansado,
mas livre dos desenganos,
ouvir histórias de fadas,
contos de indios e ciganos
e vovô a declamar solene
o poema "Meus Oito Anos"!

Recordar, diz o poeta,
é viver mais de uma vida,
por isso, hoje em versos,
nesta poesia sentida,
revivo os meus afetos
e a minha terra querida!

(IGdeOL: Amor, singelo amor!, Itapema: Graf.Verdes Mares, 2002)

quarta-feira, 30 de junho de 2010

VIA SACRA

IGdeOL

Viandante das praias de Itapema,
sou um andarilho a vagar sem rumo,
da essência da vida procurando o sumo
para aprisionar em sonoro poema!

Pescador de versos que na rede caia,
em minutos apenas, em fração de tempo,
recolho as pérolas do meu pensamento
junto aos bares desta Meia Praia...

O vento suave que em meu corpo bate
é o abraço fraterno que o Universo abarca
ao poeta, cultivador de beleza e arte!

Agradecido sou, inspiração à parte,
chego a mais uma estação da minha via sacra,
um trago apenas: só de poemas não sobrevive o vate!...

quinta-feira, 10 de junho de 2010



QUESTIONAMENTO




Bem-te-vi,
porque me provocas
nas manhãs de sol?

Acordo ao raiar do dia
para conferir tua implicância
e à distância abro a janela da minha alma:
sem te avistar ouço a tua cantiga.

Mergulho na minha individualidade
com o teu canto que me encanta
e me questiono nas manhãs de sol:
- Que tu vês, bem-te-vi?
(IGdeOL)

domingo, 16 de maio de 2010

FILOSOFANDO


(IGdeOL)

Caramba, que manhã gelada
deste inverno frio e matreiro!...

A geada, na madrugada,
no seu trabalho de fada
pintou de branco o potreiro!

E no tranco de tropeiro
com seus raios vivos de luz
o sol garboso aparece
e, pouco a pouco, conduz
na sua eterna rotina
a mudança, sem pilhéria,
de transformar a matéria
na forma da Lei Divina...

O orvalho congelado
ao toque do sol alçado
límpidas lágrimas derrama
que vão correndo na grama
do descampado sinuoso.

E no calor luminoso
do sol sublime do dia
o sólido gelo do orvalho
na messe desse trabalho
retorna ao estado gasoso
e outro ciclo se inicia.

Assim é a vida, assim sou eu,
porção de orvalho congelado,
no potreiro do mundo espalhado
aguardando do sol o apogeu
para no momento oportuno
desfazer-me em sutis substâncias,
volitar e adejar por ditosas distâncias
livre das amarras deste mundo soturno!

sábado, 8 de maio de 2010

DIA DAS MÃES


DEDICADO A MINHA MÃE

NO JARDIM SUSPENSO DOS MORTOS

(IGdeOL)


Sobressalto!

Minha mãe chora copiosamente sobre o meu cadáver.

Lágrimas umedecem o paletó preto que, lembro-me vagamente, aquele homem de face pálida e aparência distinta havia me vestido quando ainda eu jazia no frio mármore do necrotério.

Tento articular palavras de consolo à minha aflita mãe, mas os lábios que sinto ressecados não obedecem ao comando do meu cérebro. Não consigo desviar a atenção do perfil que se depara à minha frente.

Flexiono os braços para abraçá-la e eles não se movimentam.

Ouço à distância o murmúrio do vento e cânticos sonoros que aguçam a minha mente em redemoinho violento.

Não tenho noção de tempo. O lugar em que me encontro parece-me frio e terrível. Medo e pavor apoderam-se do meu pensamento. Sinto-me perdido nos confins do Universo e as lágrimas que minha mãe derrama sobre o paletó vão pouco a pouco adentranda no casimira do seu feitio, aquecendo meu coração inerte.

Sinto-me protegido por agradável sensação de afeto e me dou conta que não mais faço parte do mundo dos mortais e que sou mais um vivente no desconhecido mundo dos mortos.

Que serei nesta estranha paragem com o corpo sem ação e sendo corroído pelos vermes que deslizam nas minhas entranhas, sem ao menos pedirem-me licença para tanto?

Ah, se eu soubesse!

Com certeza teria tido mais carinho para com Dona Alzira, minha querida mãe, durante a efêmera vivência terrestre.

Agora somente as suas lágrimas são os medicamentos que amenizam as dores das feridas que minúsculos seres fazem na minha carne e nas minhas entranhas.

Silencio...

Silêncio completo!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

VENTO SUL




(IGdeOL)

São dias amargos, aziagos, os dias de vento sul!
Vejo o mar, a baía, a Praia do Meio
fria, sem o contraste do azul calmo, sereno,
sem os tons esverdeados dos dias de sol
no Bairro Coqueiros.

Os dias de vento sul
são dias amargos, aziagos!...

Homens, mulheres, crianças,
protegem o corpo, protegem o rosto
e saem à rua encolhidos, escondidos,
enrolados em seus agasalhos, abrigos,
nesses dias amargos, aziagos.

Enrolados também seus pensamentos
não notam que o vento é parte da providência Divina,
limpa a rua, a sujeira da esquina,
limpa o mar, a praia, o oceano,
a atmosfera e a terra que amamos!

E nesses dias, dias amargos, aziagos,
o Universo local se renova
levando ao sabor do vento
miasmas do pensamento
que ao muito longe desova
e por muitos outros dias
nos retorna as alegrias
do azul esverdeado do mar
das manhãs lindas de sol
das tardes de arrebol
e das horas subliemes de amar!

sábado, 17 de abril de 2010

A TRAVESSIA


(IGdeOL)

O porto não é tão distante como imaginava.

Cheguei ao local na noite passada conduzido pelo meu padrinho Florêncio que tinha a missão de mostrar-me o barco que há muito tempo transportou, com toda a segurança, o meu avô para o outro lado da vida.

Inicialmente nada pude observar. Parecia-me que meus olhos estavam vendados, tal a escuridão que ali se fazia. Vi a luz gradativamente ao tempo em que ouvia a voz do meu padrinho dirigindo-se ao barqueiro:

- Este é o poeta de quem te falei, neto do velho Gonçalves e meu afilhado. Ele tem disponível alguns talentos que economizou da venda de livros de versos e deseja acertar o preço da futura viagem em teu barco...

Ouvi até esse ponto da conversa. Meu padrinho diminuiu o tom da voz. Ambos gesticulavam. Pareciam dois italianos amigos que se encontram antes da missa das manhãs de domingo.

Recomposto observo o cenário e presto atenção naquela figura misteriosa que se chama Caronte. Vestes negras, barba branca (longa e espessa) , vivacidade no olhar, rosto majestoso e severo. Velho, muito velho...

Já desfeito do choque inicial perguntei-lhe, aproveitando o momento em que se encontravam nossos olhares:

- Caro Caronte, quando posso fazer a travessia?

- Quando findar o teu tempo, jovem poeta.

- E o custo da viagem? Posso pagar-te antecipado ou financiar pela Mortevest?

- Não caro poeta, nada recebo antecipado e a financeira não é da minha confiança.

- Então, como devo proceder?

- Teus entes vivos é que farão o pagamento. Tua alma embarcará "no meu barco" após eles terem celebrado as devidas cerimônias fúnebres e teu corpo tenha sido convenientemente cremado e/ou sepultado. Não poderão esquecer-se de colocar uma "garoupa" no teu "Olho de Shiva", que retirarei para o pagamento do transporte.

- E se tal não ocorrer?

- Vagarás pela margem do grande rio durante cem anos, entre troncos e barrancos, para que se torne limpo, puro, leve e finalmente digno de adentrar ao meu barco.

- Reserva-me uma passagem, por favor! Volto ainda hoje à Itapema. Gastarei com bom gosto os talentos economizados até agora e concluirei o meu testamento.

Despedi-me de ambos com um triplice e fraternal abraço.

Padrinho Flor ficou no porto contando causos e recitando meus versos para entretenimento de Caronte. Aguardam o meu retorno com uma nota de "garoupa" sobre o olho da alma.